Copilot é caro, lento e não confiável. E isso é culpa da estratégia, não da IA.
Trinta dólares por usuário por mês não compram curiosidade. Compram obrigação de uso. Quando o Copilot entrou no pacote corporativo da Microsoft com esse preço, ele deixou de ser experimento e virou promessa operacional. A partir desse momento, qualquer falha deixou de ser tolerável. E foi exatamente aí que o produto começou a quebrar.
O Copilot foi posicionado como a nova interface do trabalho. Não como um assistente eventual, mas como algo que atravessa e-mail, documento, reunião e código. Isso cria um critério binário. Ou funciona de forma previsível todos os dias, ou atrapalha. Não existe meio termo aceitável para algo que ocupa o centro do fluxo. Quando Satya Nadella admite internamente que a experiência no Outlook e no Gmail “não funciona”, ele está reconhecendo que a Microsoft antecipou a ambição antes de resolver o básico.
O problema não é que a IA erre. É que ela exige supervisão constante. Em produtividade, supervisão destrói valor. Se o usuário precisa revisar cada resumo, cada resposta sugerida e cada decisão automatizada, o tempo prometido vira tempo perdido. A ferramenta entra no fluxo cobrando atenção extra. Isso não gera revolta aberta. Gera abandono silencioso. A licença continua ativa, o uso cai, e a liderança só percebe quando a renovação vira discussão desconfortável.
A arquitetura escolhida agravou o erro. O Copilot nasceu como uma camada acoplada a softwares legados. Um painel lateral, um comando mágico, uma ação pontual. Isso funciona em demonstração controlada. No mundo real, esbarra em contexto incompleto, dados fragmentados e regras corporativas. O resultado é instabilidade percebida. E instabilidade, para ferramenta central, é pior do que ausência. Sem confiança, ninguém delega trabalho de verdade.
Latência virou o segundo golpe estrutural. Em ambientes corporativos, segundos importam. Esperar para resumir um e-mail ou preparar uma resposta não é aceitável quando o inbox dita o ritmo do dia. A promessa da IA era reduzir fricção cognitiva. O Copilot, em muitos cenários, adicionou fricção operacional. Isso não aparece em métricas de venda. Aparece no hábito que nunca se forma.
Existe ainda o custo que raramente entra no pitch. Risco jurídico e reputacional. IA corporativa opera sobre dados sensíveis, comunicação oficial e decisões internas. Alucinação deixa de ser detalhe técnico quando envolve cliente, regulador ou processo. O comprador enterprise não quer criatividade. Quer previsibilidade, rastreabilidade e controle. Quando o jurídico entra na conversa, a tolerância ao “às vezes funciona” vai a zero.
No desenvolvimento de software, o sinal foi ainda mais claro. Ferramentas como Cursor mudaram o padrão ao tratar a IA como agente que opera em múltiplos arquivos, entende contexto amplo e executa mudanças reais. Isso desloca o valor do modelo para o ambiente. Quem controla o ambiente controla o hábito. Quando o desenvolvedor muda de ferramenta, ele leva stack, fluxo e preferência de plataforma junto. A Microsoft percebeu tarde que não competia só em qualidade de resposta, mas em onde o trabalho acontece.
A reação de Nadella não é detalhe de gestão. É correção de rota estratégica. Quando o CEO entra no produto, ele está dizendo que a organização errou o timing entre promessa e maturidade. Ao mesmo tempo, a Microsoft tenta equilibrar duas forças opostas. Reduzir a ambição visível do Copilot para recuperar confiança imediata, sem perder a narrativa de liderança em IA no médio prazo. Esse é o trade-off real. Acelerar demais gera rejeição. Frear demais abre espaço para concorrentes redefinirem o padrão.
No Brasil, o roteiro se repete com menos escala e o mesmo erro. Compra-se IA para não ficar para trás. Faz-se piloto. Mede-se ativação inicial. Declara-se sucesso. Meses depois, compliance limita acesso a dados, a latência vira piada interna e o time volta a usar soluções externas porque são mais rápidas. O orçamento seguinte cobra resultado. A tecnologia não falha por incapacidade. Falha porque foi empurrada para o centro do trabalho antes de merecer esse lugar.
A intervenção no Copilot marca o fim da fase confortável do discurso. Agora começa a parte difícil. Transformar IA em produto previsível, confiável e até entediante. Porque é assim que ferramentas centrais sobrevivem. A pergunta que fica não é sobre inteligência. É sobre delegação. Quem vai pagar caro por autonomia se ainda precisa revisar tudo como se estivesse treinando um estagiário inseguro?



Fui early adopter do Copilot por usar a versão Insider e ele mudou bastante com o tempo. Acho que a promessa (e diferencial) era a integração com os demais produtos do pacote 365 e a esperança na dianteira da OpenAI.
Eles acreditavam que isso iria centralizar todas as funcionalidades do Office no chat. Mas perderam a passada por conta da complexidade do legado deles, pelo avanço rápido do Google inclusive com a integração com as ferramentas office deles, e a OpenAI começando a ter concorrentes fortes (Google novamente?) e segmentados.
O preço também é um diferencial. Quem assina chatGPT tem todas as ferramentas de IA do chatGPT. Tem assina o Gemini (Google na verdade) tem várias outras ferramentas, não apenas de IA no pacote.
A Apple essa semana correu para o Google, a Microsoft provavelmente vai ter que correr abraçada com a OpenAI. Mas ainda sem muita perspectiva de fazer algo fora da caixa.