O loop que sustenta o boom de IA
No primeiro trimestre de 2026, a Alphabet anunciou o maior lucro da sua história: $62,6 bilhões. A Amazon veio logo atrás com $30,3 bilhões de lucro líquido, alta de 77% num único ano. As manchetes foram exatamente as que você esperaria: IA entregando resultados, Big Tech provando que os investimentos valem.
Uma linha no release financeiro da Alphabet, enterrada bem abaixo do título, explicava de onde vieram $28,7 bilhões desse lucro recorde. A empresa reavaliou sua participação de 14% na Anthropic para cima e lançou o ganho como receita. Não vendeu a participação. Não recebeu dividendo. Só atualizou o número no balanço e contou como lucro. Dois dias antes de publicar esse resultado, a Alphabet tinha anunciado mais $40 bilhões em compromissos com a mesma Anthropic, boa parte em créditos de computação em nuvem. A empresa ajudou a elevar o valor do ativo que ela mesma iria marcar como lucro.
A Amazon fez o mesmo. Dos $30,3 bilhões de lucro do trimestre, $16,8 bilhões vieram da reavaliação da sua participação na Anthropic. Somando os dois, $45 bilhões do lucro reportado por duas das maiores empresas do mundo no mesmo trimestre vieram de uma só startup privada que nenhuma das duas consegue vender em bolsa. A Anthropic vale o que a Anthropic vale na última rodada de captação, e quem investe nas rodadas são as mesmas empresas que marcam o lucro.
A UserGuiding é uma plataforma no-code que permite criar tours guiados, checklists de ativação, tooltips contextuais e segmentação por comportamento de usuário, sem depender de engenharia para cada iteração. Você configura o fluxo, define os gatilhos e publica direto em cima do seu produto. Você tem 20% de desconto. Acesse aqui e use o cupom: PRODUCTGURUS.
Esse movimento é legal porque o Financial Accounting Standards Board mudou as regras em 2016, numa atualização chamada ASU 2016-01, criada originalmente para corrigir uma distorção que tinha contribuído para a crise de 2008. Antes da mudança, ganhos não-realizados em participações societárias ficavam represados no “outros resultados abrangentes”, fora do lucro líquido.
Depois da mudança, cada reavaliação de uma participação relevante vai direto para o resultado. O FASB pensava em bancos com carteiras de ações públicas. O que acabou criando foi o mecanismo que permite à Amazon transformar cada nova rodada de captação da Anthropic em lucro contábil sem receber um centavo.
O mecanismo de loop fecha assim. A Microsoft investiu $13 bilhões na OpenAI, grande parte em créditos para usar servidores Azure. A OpenAI usou esses créditos para treinar modelos. A Microsoft registrou o uso dos servidores como receita nova de cloud. O dinheiro saiu do caixa da Microsoft, passou pela OpenAI e voltou como faturamento da Microsoft. O gráfico publicado pelo The Information com base nos arquivos das empresas coloca em números o tamanho dessa dependência: a Microsoft tem $627 bilhões em backlog contratado, dos quais 49% vêm de OpenAI e Anthropic juntas; a Oracle tem $553 bilhões, com a OpenAI respondendo por 54% do total via um contrato de $300 bilhões; o Google tem $467,6 bilhões, 43% atrelados à Anthropic; a Amazon chega a $464 bilhões, com 51% dependente das duas startups.
Quando esses quatro somam mais de $2 trilhões em backlog contratado, mais da metade desse número vem de duas empresas que ainda dependem dos próprios investidores para cobrir suas contas de infraestrutura. A Anthropic comprometeu $100 bilhões em gastos com AWS ao longo de dez anos num acordo fechado em abril de 2026. A Amazon investiu $25 bilhões na Anthropic no mesmo período. Os dois movimentos aparecem nos balanços como receita futura contratada e como investimento em ativo, respectivamente, numa estrutura onde o investidor e o cliente são a mesma entidade.
Tem um precedente razoavelmente documentado para esse tipo de circuito. Em 2000 e 2001, a Global Crossing e a Qwest trocavam capacidade de fibra óptica entre si, registravam cada troca como receita e inflavam os balanços para parecer que o negócio crescia. A Qwest acabou apagando $950 milhões em receita depois que o SEC investigou. A Global Crossing faliu em 2002 com $12,4 bilhões em dívida. A diferença entre esse caso e o que acontece hoje está numa única variável: as trocas de fibra foram declaradas fraude contábil, o loop de investimento e compute é permitido pelas regras atuais, inclusive pelas mesmas que o FASB introduziu para aumentar transparência.
A distinção importa porque determina o que pode acontecer na prática. Fraude tem investigação, restatement, criminais condenados. Contabilidade agressiva mas legal tem analistas que reclamam, um trimestre ruim quando o crescimento desacelera, e depois revisão gradual de expectativas. A pergunta concreta é se o crescimento real da Anthropic e da OpenAI vai ser grande o suficiente para sustentar os backlog que estão nos balanços, e o que acontece na Microsoft, Oracle, Amazon e Google se a resposta for “ainda não”.
A Anthropic reportou $30 bilhões em receita anualizada em abril de 2026, subindo de $87 milhões em janeiro de 2024, numa trajetória que a própria empresa admite ter superado suas projeções por um fator de oito. Mas a OpenAI, que a própria Anthropic contesta ter $30 bilhões em receita real alegando distorção de $8 bilhões pela forma como os modelos são contabilizados nas plataformas cloud, tinha uma conta de infraestrutura que ultrapassou $60 bilhões anuais contra receita de $25 bilhões. A diferença continua sendo coberta por novas rodadas dos mesmos grandes investidores.
O free cash flow da Amazon no primeiro trimestre de 2026 caiu 95% para $1,2 bilhão enquanto o capex chegou a $44,2 bilhões. O lucro reportado foi recorde. O dinheiro disponível quase zerou.
A demanda por compute de IA é real e os modelos estão sendo usados por empresas de verdade, com a Anthropic reportando 300 mil clientes corporativos e 100 mil deles usando Claude via Amazon Bedrock. O problema é que os números que aparecem nos balanços hoje, os que movem os índices e os fundos de pensão dos americanos, incluem uma camada que depende de avaliações privadas que as próprias empresas investidoras ajudam a fixar. Alphabet abre o resultado do trimestre com $62 bilhões de lucro. Quase metade veio de reavaliação de um ativo que ela não pode liquidar no mercado e cujo preço ela mesma ajuda a estabelecer nas rodadas seguintes.
A questão que fica em aberto vai além de saber se os modelos valem o investimento:
Quando a Anthropic e a OpenAI forem a IPO, o que acontece com o lucro contábil que a Amazon e a Alphabet estão reconhecendo toda vez que o valuation dessas startups sobe?
Ação em bolsa tem preço de mercado todos os dias. Participação em empresa aberta tem que ser marcada pelo preço de fechamento, não pela última rodada privada negociada entre partes relacionadas. Se os IPOs vierem com preços de mercado abaixo das avaliações que estão nos balanços agora, o ciclo de markups que alimentou metade do lucro do primeiro trimestre de 2026 vira ciclo de write-downs, e aí a questão deixa de ser contábil.
🚨 13 vagas pra startups B2B SaaS brasileiras entrarem no Azure Marketplace, sem custo, com co-sell e reseller channel ativados em cerca de três semanas. O prazo fecha em 30 de junho, quando encerra o ano fiscal Microsoft e os incentivos do ciclo atual resetam. Form de qualificação (5 min) 👉 https://productgurus.short.gy/5WYVoJ



