Quem fica com as dez horas que a IA economizou?
✌️ Oi. tudo bem com você? Hoje esse texto vai abordar um tema que todos os profissionais de produto, tech e design sentem e muitas empresas também sabem, mas tratam como normalidade. A IA prometeu produtividade, o que gerou uma expectativa de ganho de tempo, mas o que aconteceu foi o contrário. No Twitter (X) a bolha Dev discutem outro ponto: QUALIDADE de feature. Mas hoje quero abordar sobre qualidade do tempo!
Conversando com muitos product managers e até lideranças de produto, uma coisa é fato, a IA aumentou a produtividade no dia a dia, porém existe uma coisa que a IA não ajudou, que foi fazer com que as pessoas de produto tivessem tempo. isso foi abordado pelo Pablo Silva, head de produto e engenharia no iFood, em um episódio recente do meu podcast.
“Ela pode dar para o PM tempo de qualidade para pensar, porque é isso que importa. No fim do dia, o que importa é o quanto o PM consegue ajudar a empresa a tomar boas decisões.”
Com o avanço da IA o que se esperava era que o PM se tornasse mais estratégico, mas dado a cultura da maioria das empresas, o PM continua sendo mais operacional que antes, porque os processos e a mentalidade das empresas continuam as mesmas. Os times enxutos que conseguem acelerar as coisas com IA são aquelas que tem autonomia mas que tem o seu envolto ajustado para eles, como processos e governanças adaptáveis para uma outra realidade.
Pensando sobre isso lembrei que já escrevi sobre a crise silenciosa dos times de produtos que apareceu em um estudo da State of Product 2026, da Atlassian, que mostrava que metade das pessoas de produto dizem economizar entre 10 e 60 minutos por dia usando IA. Entre aqueles que percebem impacto alto ou muito alto na produtividade, 92% recuperam mais de duas horas. Mesmo com esse ganho, o que se viu foi que 49% dizem que ainda não têm tempo suficiente para planejamento estratégico e roadmap, e outros 49% apontam a mesma falta de espaço para análise de dados e acompanhamento de métricas.
Esse estudo deixa muito claro a contradição entre a propaganda feita pelas ferramentas de IA sobre produtividade com a vida real no dia a dia. Para tarefas fáceis como documentação, pesquisa de mercado, análise de dados e síntese de feedback de clientes a IA realmente ajudou, mas o papel de um product manager não se resume a isso, e aí você vê que 77% ainda não usam IA para administrar mudanças de prioridade e cronograma.
A ferramenta encurta o tempo necessário para escrever um PRD, organizar uma análise competitiva ou resumir entrevistas, mas os gargalos que mantêm o PM preso ao operacional continuam fora dela. Quase metade dos participantes cita incentivos concorrentes ou política interna como barreira à colaboração, 43% mencionam falta de apoio da liderança e 39% apontam o equilíbrio entre múltiplos projetos, prioridades e capacidade do time como um dos maiores desafios da função.
A pesquisa de Noam Segal e Lenny Rachitsky encontra a mesma questão pela perspectiva dos profissionais de tecnologia ouvidos, 82% dizem que a IA já melhora seu desempenho, mas 51% temem ser cobrados a fazer mais pelo mesmo salário, 46% receiam entrar em um ritmo insustentável e 41% se preocupam com a queda na qualidade do próprio trabalho. O medo de perder o emprego diretamente para a IA aparece para 22% dos respondentes, apenas.
A pergunta que ficou mais difícil é outra: se você economiza dez horas com IA, quem fica com essas dez horas?
Um dos participantes dessa pesquisa falou que passou a fazer mais e mais rápido, mas não melhor. Já outro descreveu a sensação de estar amplificado e desestabilizado ao mesmo tempo, porque a IA criou um novo denominador para o trabalho e esse denominador continua subindo. O ganho de produtividade existe, mas pode desaparecer quando a empresa continua sendo operada e baseada em incentivos antigos, fazendo com que o tempo economizado vire uma pressão e expectativa para mais entregas, continuando assim o ciclo de fábrica de softaware, agora com uma ferramenta potente.
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As duas pesquisas não provam que a IA está causando burnout, apesar que no dia a dia conversando com muitas pessoas a sensação é que sim, ela com certeza tem sido um fator para tal, mas essas pesquisas trabalham com públicos e amostras diferentes.
Juntas, porém, ajudam a formular uma pergunta para o contexto brasileiro:
Se a IA já reduz horas de trabalho operacional e os profissionais continuam sem tempo para estratégia, para onde está indo essa produtividade? E o que acontece quando toda economia vira nova demanda dentro de empresas que mantiveram os mesmos processos, a mesma governança e a mesma forma de cobrar resultado?
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