Como matar a inovação

Marty Cagan - 02/02/2009 Traduzido por: Raphael Jubram

Na semana passada, encontrei duas empresas de tecnologia de software diferentes (nenhuma delas no Vale do Silício) que, recentemente, haviam trazido consultores Six Sigma.


Fui pego de surpresa porque há muito tempo não ouvia falar de uma empresa de tecnologia que tenha considerado fazer isso.


Espero que tenha sido uma anomalia mas, pensando no espírito de que "aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo", achei importante discutir metodologias centradas na qualidade, como o Six Sigma.


Especialmente no mundo da indústria, se a sua empresa tem dificuldades com questões de qualidade ou de custos, o Six Sigma pode ser muito apropriado.

Ele se baseia em um conjunto de técnicas e práticas de gestão da qualidade, que podem reduzir significativamente os custos e as taxas de defeitos.


Infelizmente, muitos dos que defendem o Six Sigma acreditam que os princípios devem ser aplicados em toda a organização, para praticamente qualquer processo empresarial.

Mas o que pode ser bom para remover defeitos em um processo de fabricação pode destruir completamente o processo de descoberta de produtos e desenvolvimento de software.


Por favor, saiba que falo sério quando digo isso: para empresas que dependem da inovação, essas pessoas bem-intencionadas, mas mal orientadas, podem destruir o seu negócio.


Na nossa indústria, vivemos e morremos pela nossa capacidade de inovar.

Sim, a qualidade é importante, mas só é interessante discutir a qualidade se você tiver um produto que as pessoas desejam.


Você se lembra da antiga Motorola, a empresa que costumava ser "movida por uma paixão de inventar"?


Que tal a 3M, a empresa que se baseava em encorajar a iniciativa e a inovação entre os seus funcionários?


E a GE, a empresa que realmente era habituada a "dar vida a grandes ideias"?


Tem também a Sun que, a certa altura, era incrivelmente criativa e relevante.

O mesmo ocorreu com a Intuit, uma empresa que foi fundada com base no compromisso de encantar os clientes.


O que todas essas empresas têm em comum é que elas costumavam ser amplamente admiradas e inovadoras em tecnologia consistentemente. Até que o Six Sigma tomou posse.


Então, a inovação praticamente desapareceu. Tudo se transformou em pequenas melhorias incrementais e, no nosso negócio, isso só nos levará até certo ponto.


Agora, claro, a intenção do Six Sigma nunca foi matar ou abafar a inovação.


Mas, para uma organização, as consequências negativas não intencionais de tentar aplicar o dogma Six Sigma para além dos processos para os quais ele é apropriado são tão profundamente prejudiciais que anulam os benefícios, especialmente a longo prazo.


Sim, pode poupar alguns custos em curto prazo, mas, depois, é possível ver as consequências na linha da frente à medida que as introduções de novos produtos significativos se tornam lentas e as reações dos clientes aos seus produtos decepcionam.


Visite uma equipe de produtos tecnológicos numa empresa Six Sigma e encontrará pessoas que tiveram a criatividade e a iniciativa esgotadas.


Tudo se resume a evitar a burocracia e a dor associada a qualquer desvio.


E não é surpresa que tenham tido dificuldade em reter as pessoas criativas de que necessitam para inventar os seus futuros produtos de sucesso.


Para as empresas de tecnologia, não se trata apenas de eliminar defeitos e ineficiências.

Trata-se de descobrir e entregar produtos e serviços que os clientes adoram.

Não caia na armadilha de confundir construir certo o produto com construir o produto certo.


Se o seu objetivo é ganhar o Malcolm Baldrige National Quality Award (prêmio de reconhecimento às organizações dos EUA nos setores de negócios, saúde, educação e organizações sem fins lucrativos pela excelência em desempenho), então, talvez, o Six Sigma seja para você.


Mas, se o seu objetivo é criar produtos vencedores, você precisa otimizar a sua organização em torno da descoberta de produtos e encorajar apenas o tipo de criatividade e iniciativa que permite às pessoas pensarem e agirem de forma diferente.


Não são apenas os consultores Six Sigma que podem tentar aplicar as suas técnicas a áreas que não fazem qualquer sentido.


Também vi alguns defensores excessivamente zelosos do Scrum tentarem aplicar o processo a áreas para as quais ele não foi concebido e fazer uma confusão também.


Mas, honestamente, nunca vi danos na capacidade de inovação de uma empresa tão profunda e duradoura como o que aconteceu às empresas que tentam implementar o Six Sigma de cima para baixo.


Assim, se encontrar um desses caras do Six Sigma vagueando pelos corredores da sua empresa de tecnologia, agarre-os pelo seu cinto e atire-os de volta para o local de onde vieram.

Artigo Original: https://bit.ly/3cDe9xW